Realmente, o teatro não faz baixar o preço do feijão, não apressa a cassação de político corrupto e às vezes, ao contrário, até serve para corruptos fazerem das CPIs o seu palco... Mas não é por que, partindo desse viés, o teatro não serve pra nada (e serve pra tudo) que vamos “avacalhar”.
Recentemente me fiz platéia de “O Príncipe da Floresta”. De todas as operações empreendidas pela contemporaneidade no campo da arte, acho que a mais evidente é a que desmonta a pretensão naturalista de cópia do real. “O Príncipe da Floresta” é uma mordaz cópia de “O Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry. “O Pequeno Príncipe” conta a história do piloto cujo avião cai no deserto, onde ele encontra um príncipe, "um pedacinho de gente inteiramente extraordinário" que o leva a uma jornada filosófica e poética através de planetas que encerram a solidão humana em personagens como, dentre outros, o homem de negócios que possuía as estrelas contando-as e recontando-as em ambição inútil e desenfreada; a serpente enigmática; a flor a qual amava acima de todos os planetas. “O PRÍNCIPE DA FLORESTA” TAMBÉM!
Não existe um modelo pronto, uma receita para adaptar uma obra literária. O interessante é a gente poder debater e conversar sobre as possibilidades que existem. O fato é que a obra não foi ADPTADA foi copiada. Essa cópia não se restringe, evidentemente, ao desejo de reprodução exata de detalhes nos cenários e figurinos, mas se empenha na busca de uma causa suficiente para explicar as situações apresentadas. E o que isso tem a ver com o teatro feito para crianças e jovens? A co-presença entre espectadores e atores era o que fazia minha filha, quando pequena, distinguir teatro de cinema. “Teatro é de gente. Cinema é de tela”. E, por causa das características técnicas da cena teatral que, em princípio, a afastam de certos “efeitos especiais”, algumas crianças têm “preguiça” de ir ao teatro porque já sabem que uma série de coisas lá não serão como no cinema. Imaginem se assistissem ao “O Príncipe da Floresta” encenado pelo Grupo Harém de Teatro e dirigido por Arimatan Martins que tem a péssima mania de colocar o Marcel Julian sempre nos mesmos personagens. Ele já é uma catástrofe seja qual for o personagem, mas Martins deveria ao menos trocar seus papéis para podermos acompanhar as nuances dessa tragédia Cênica.
Quanto ao popular “Manú” nem sei por onde começar! Prefiro até não falar nada. Mas sua interpretação desastrosa não passa despercebida. Fernando Freitas vem enrolado num trapo que não lhe dá domínio corporal fazendo uma serpente engraçada. Agrada, entretanto, mais aos adultos "entendidos" da platéia do que as crianças que fazem (ou ao menos deveriam fazer) parte daquela magia. Francisco Castro passa despercebido mesmo com a capa de “Cão Gasolina” compondo seu figurino e seu típico abrir e fechar de olhos (freneticamente) em todos os seus personagens.
A apresentação cênica não se fecha num único nível de decodificação e coloca sempre e sempre a questão da relação entre o palco e a realidade extracênica, representada, em primeira instância, pela platéia. Fico cheia de revolta e me pergunto: O QUE VOCÊS REALMENTE QUEREM COM ISSO? As pessoas experimentam sem conhecer o que veio antes, então fica um pouco falso, apenas ilusoriamente experimental. Há uma preocupação em ser original que fica superficial. O Coração me dói quando eu vejo um engano de gente que costuma até fazer bem. Mas que desta vez não fez! Como se não bastasse ter uma encenação agitada e uma montagem desastrada ainda colocam em cena uma criança completamente despreparada para assumir o Protagonista de um Espetáculo Teatral. Erro da direção e não da criança (obviamente). O fato de as crianças terem tanta vontade de se aproximar dos atores e vasculhar o cenário e os adereços ao fim de cada apresentação não deve ser compreendido apenas como uma manifestação de tietagem explícita, mas como uma irresistível curiosidade pelo desvendamento da mágica da operação ficcional no teatro. O que as crianças não sabem é que elas são parte daquela mágica, que só se dá na cena ou na memória. E, ao fazer a mágica e, ao mesmo tempo, até pela natureza de seus recursos, desvelar o artifício, o teatro retoma o caráter político, pondo em evidência os atos e as decisões dos homens dentro daquele pequeno lapso de tempo em que se suspende a incredulidade para crer naquilo que o pacto entre espectadores e espetáculo propõe. Essa decalagem, esta cesura entre a verdade ficcional, a apreensão da platéia e a realidade cotidiana é uma poderosa arma contra a visão unilateral, o autoritarismo e a apatia. A Criança que Arimatan põe em cena não foi preparada para esta verdade.
Acredito, piamente, que o Grupo Harém de Teatro é capaz de dar um novo desenho a este espetáculo tão cheio de propósitos. Portanto, peço-lhes: “Por favor, desenha-me um NOVO carneiro!"
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