sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

NÃO SERIA MELHOR PELO DIAFRAGMA?





Adelaide Fontana, apresentadora de um programa de poesias de uma rádio do interior que, após 25 anos trabalhando, é demitida por usar sua voz para expressar suas idéias, o que, para uma sociedade interiorana e preconceituosa torna-se um problema. 

A locutora fica inconformada com a demissão e coloca no ar seu último programa, no qual revela várias tramóias e podres de uma família que dominava a cidade. Uma Sinopse convincente.Nos dá vontade de assistir, mas quando chegamos ao teatro... 

Lari Sales, a DIVA do teatro piauiense, vive seu declínio. Uma Pena! A vontade de ser atriz, que já centralizava as fantasias de Lari desde a infância, misturou-se com a sensualidade descoberta na juventude. O resultado é uma sólida carreira de 31 anos, em que os pontos altos são as atuações em Apareceu a Margarida, e Itararé, a República dos desvalidos. 

Seu recente trabalho, A RAINHA DO RÁDIO mostra todo o oposto que Lari construiu ao longo desses mais de 30 anos. Mostra uma Atriz despreparada física e cenicamente. A respiração (Que deve ser absolutamente controlada pelo ator) é completamente utilizada sem técnica. O que acontece? Esqueceu truques Cênicos Lari? Pois as aulas sei que não faltou! Libório era exigente. Eu me lembro bem, as primeiras aulas foram sobre respiração e projeção da voz. Nós primeiro tivemos de descobrir onde ficava o diafragma, o músculo que separa o tórax do abdome e controla a respiração. Até que não foi difícil: quatro dedos acima do umbigo, lá estava o diafragma. 

Segunda lição: ao inspirar, a barriguinha estufa. Ao expirar, a barriguinha murcha. Nada de ombros pra cima nem peito arfando. 

Foi um pouco complicado, depois de tantos anos agindo segundo um conceito de que é necessário “encher o peito de ar”, respirar com o peito imóvel e a barriga pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora. Dava uma sensação de estar morrendo afogada – além da dor muscular na barriga. 

Ficavamos com a palma da mão encostada na barriga do colega ao lado, sentindo a utilização do diafragma ao respirar. Era engraçadíssimo: tem gente que MEXE A BARRIGA, mas não respira, fica sem ar e então enche o peito. Tem gente que não consegue mexer a barriga no mesmo ritmo da respiração. É uma prática cansativa, porém é o jeito natural de respirar. “Basta observar um bebê dormindo”, o diretor dizia. “A barriguinha dele sobe e desce, ritmada. Nós, com ombros tensos, coluna torta, sentados o dia inteiro, estressados, ficamos com a respiração curta, aqui no alto” – e ele batia no próprio colo. 

A RAINHA DO RÁDIO de de José Safiotti Filho, com direção e interpretação de Lari Salles é atualizada para aproximar o espectador da região teresinense. Ao invés do Belíssimos Poemas de Carlos Drummond de Andrade, a direção põe em cena poemas de Graça Vilhena, Marleide Lins e outros poetas piauienses. Vale a pena assistir o espetáculo SOMENTE por causa da Sonoplastia do ilustríssimo José Dantas. Isto em apresentações que a própria Lari não opera o som por que quando isso acontece a atriz se embanana e torna pior o que já estava ruim. 

Afinal, não consigo entender como Adelaide Fontana possua em 1960 um controle Remoto! Sim, a peça nos faz acreditar que estamos em 1960 pois sugere alguns fatos que marcaram a época, principalmente no tocante às questões políticas e sociais. Mas mudar faixa de controle remoto em 1960 é um tanto inverossímil, já que o artefato só surgiu em 1977. Enfim, além das dores abdominais, ficou uma piada interna. Toda vez que alguém diz “Respira pelo diafragma!”, a pessoa responde “Não seria melhor pelo nariz?”

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